quarta-feira, 13 de maio de 2015

O reverso da medalha

por Paulo Diniz
(publicado na edição de 10/05/2015 de O Tempo - Belo Horizonte, Minas Gerais)

Causou intensa polêmica a escolha dos homenageados com a entrega da Medalha da Inconfidência, realizada em Ouro Preto no dia 21 de abril. O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, e o líder do Movimento dos Sem Terra, João Pedro Stédile, foram os mais controversos dentre os agraciados, o que inclusive levou alguns laureados do passado a devolver suas comendas por correio. Mais do que combustível para a ira da oposição ao Governo mineiro, esse episódio guarda mais significados do que a retórica das principais lideranças políticas estaduais nos deixa perceber de imediato.
Inicialmente, é preciso considerar que a escolha dos agraciados com tais comendas compõe um processo intrinsecamente político: por mais que não reflita benefício financeiro ou de qualquer ordem prática, a concessão de distinções aos cidadãos que mais contribuíram com a coletividade tem papel destacado na história brasileira. Durante o período Monárquico, a distribuição de títulos de nobreza não hereditários foi importante para fortalecer a linha política que mais interessasse ao Imperador no momento, mesmo que esse não detivesse papel político de fato. Satisfeitos com a deferência feita pelo poder, muitas lideranças políticas regionais permaneceram fiéis ao regime por mais tempo do que ficariam se não tivessem seu orgulho pessoal vinculado à Corte do hábil Dom Pedro II.
É inevitável, assim, que cada governo busque cativar as personalidades que puderem contribuir com seu projeto político; é nesse sentido pragmático que se deve avaliar o posicionamento do governador Fernando Pimentel. Comparar os méritos pessoais de quem foi homenageado no passado e no presente implica em grande risco de se produzir resultados igualmente desanimadores.
Avaliando a política de alianças que busca construir Pimentel ao homenagear Lewandowski e Stédile, fica clara a aproximação do governador em relação à esfera nacional do PT. Ao trazer para Ouro Preto figuras estimadas tanto por Dilma quanto por Lula, Pimentel empresta um pouco do prestígio ascendente do PT mineiro para a combalida instância federal de seu partido; oferta generosa para uma presidente que conta com apenas 13% de apoio popular em âmbito nacional.
A profissão de fé de Pimentel ao petismo também serviu para desviar a atenção geral de alguns aspectos desagradáveis da situação de Minas, como a falta de recursos fiscais e a restrição de gastos que essa acarreta. Adepto da busca pela eficiência da máquina pública, Fernando Pimentel precisa de todos os apoios políticos que puder reunir, pois contraria a tendência tradicional dos governos de esquerda manterem altos padrões de gasto.

Serve de lembrete, da delicada conjuntura sobre a qual se sustenta o primeiro governo petista de Minas, o protesto de professores da rede estadual que também tomou Ouro Preto: demandam aumentos salariais da mesma forma que fizeram junto a governos anteriores, e também como no passado, vão ter que adequar seus desejos à realidade fiscal do Estado mineiro.

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