quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Dois anos cruciais

por Paulo Diniz
(publicado na edição de 11/01/2015 de O Tempo - Belo Horizonte, Minas Gerais)

Há dois anos, o deputado federal Júlio Delgado se encontrava no centro da disputa pela Presidência da Câmara dos Deputados: aproximando oposição e os insatisfeitos da ala governista, sua plataforma de candidatura parecia indicar o surgimento de uma nova força na política nacional, gerando expectativas para o que viria em 2014. Hoje Delgado está na mesma posição, porém o contexto à sua volta se alterou a ponto de emprestar significado diverso à sua atual candidatura. Compreender essas mudanças significa não apenas realizar retrospectiva da política brasileira nos últimos anos, como também revisar o sistema político nacional.
No início de 2013, Julio Delgado despontava como elemento de ligação entre a oposição tucana e a liderança ascendente de Eduardo Campos, o presidente do PSB que então afastava cada vez mais seu partido da órbita petista. Havia, assim, muita expectativa em relação à votação que Delgado atrairia na Câmara, e também no que tocava ao cenário presidencial de 2014, quando o apoio do PSB poderia gerar respaldo político renovado ao PSDB. Nos bastidores da campanha de Delgado, Aécio Neves e Eduardo Campos torciam pelo sucesso desse primeiro experimento de aproximação entre seus projetos políticos, que pareciam convergir para uma chapa conjunta para a disputa pela Presidência da República no ano seguinte. A polarização da eleição da Câmara contra o governista Henrique Eduardo Alves, do PMDB, assim como o momento político tranquilo pelo qual passava o Brasil, inviabilizaram a vitória da plataforma de Julio Delgado; porém, a votação obtida foi encorajadora.
Desde então, tudo mudou: protestos populares, estagnação econômica, Copa do Mundo, empate técnico no segundo turno presidencial de 2014 e o escândalo da Petrobras foram alguns fatores que causaram grande abalo na sustentação política de Dilma Rousseff. Já no PSB, a filiação surpreendente de Marina Silva, o rompimento formal com o PT, o falecimento de Eduardo Campos e ascensão e queda vertiginosas da candidata do partido na campanha do ano passado colocaram o PSB como protagonista nacional. O candidato Julio Delgado, nesse sentido, passa de teste de viabilidade em 2013 ao posto de representante de uma corrente política em crescimento em 2015.
Outra diferença entre os cenários de 2013 e 2015 é o quadro das demais candidaturas à presidência da Câmara: diferente da unidade do passado, hoje há duas lideranças dividindo a base governista, Arlindo Chinaglia pelo PT e, pelo PMDB, um tradicional desafeto de Dilma, Eduardo Cunha. Essa rivalidade no campo do governo representa oportunidade para Julio Delgado, que deixa de ser alvo preferencial dos outros principais candidatos.
O descontentamento do PMDB diante das nomeações ministeriais de Dilma promete um ano delicado para o governo, que já demandava apoio legislativo como nunca, fragilizado que está pelas investigações na Petrobras. Nesse complexo momento político, é difícil achar alguém em posição mais estratégica que o juiz-forano Julio Delgado.

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