sexta-feira, 15 de abril de 2016

O povo de Oliveira

por Paulo Diniz
(publicado na edição de 03/04/2016 de O Tempo - Belo Horizonte, Minas Gerais)

Em sua rica história política, Minas Gerais contou com a contribuição de todas as suas regiões para compor um conjunto de estadistas incomparável: Diamantina foi berço de Juscelino Kubitschek, enquanto a vizinha Bocaiuva produziu José Maria Alkmin, símbolo da habilidade dos políticos mineiros. São João del Rei foi berço de Tancredo Neves; já Barbacena deu origem ao clã dos Andradas, dinastia que articulou da Independência à Revolução de 1930. A Zona da Mata contribuiu com figuras que marcaram a história nacional: os presidentes Artur Bernardes e Itamar Franco, respectivamente de Viçosa e Juiz de Fora.
A cidade de Oliveira, no Centro Oeste, tem como seu filho mais famoso Eliseu Resende, que apesar de prolífica carreira, não compõe o time citado acima. Porém, o que parece encaminhar essa cidade para a história política é seu povo: a imprensa nacional acompanha com atenção a mobilização popular em Oliveira, contrária a um projeto de lei que propunha aumentar o salário dos vereadores do município, em plena crise fiscal. Com direito a altos e baixos, a presença popular na Câmara foi capaz não apenas de conter a ganância os edis locais, como também colocou em pauta propostas de redução do salário dos vereadores, uma delas para o nível do salário mínimo nacional, inédita no país.
Essa ação coletiva representa a soma de vários fatores, como o poder das redes sociais, a íntima relação que envolve o povo e seus representantes em cidades menores, assim como a maior disposição dos vereadores em ouvir as ruas quando há eleições por perto.
Como o caso ainda não teve seu desfecho, é preciso dotá-lo de certa perspectiva. Inicialmente, o tema da remuneração dos parlamentares merece visão mais serena: necessariamente, a redução drástica dos salários dos vereadores tende a afastar da política as pessoas que dependem do próprio trabalho para sobreviver, não podendo se dedicar à função pública voluntariamente. A tendência, a longo prazo, seria a de tornar a política uma atividade restrita às elites econômicas, reduzindo a representatividade da sociedade nas esferas de poder. Na prática, retornaríamos à doutrina que predominou até o século XIX, que vinculava a participação política à posse de certo nível de bens materiais; sem dúvida, seria um grande atraso em nossa democracia.
Outro ponto crucial a ser considerado é a indispensável transposição do ímpeto cívico da população para o âmbito da política formal. Por paradoxal que pareça, somente quando o povo assumir a posição daqueles que criticou, os vereadores, é que poderá ser vislumbrada uma mudança significativa na estrutura política da cidade. Os protestos massivos de 2013 servem de exemplo de que a mera revolta não deixa frutos se não conseguir tirar de cena os “culpados de sempre”. Portanto, para marcar definitivamente seu nome da história política mineira, o povo de Oliveira deve mostrar nas urnas uma renovação radical nos quadros do Legislativo municipal: eleger a si mesmo, por meio das novas lideranças que surgem.

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